segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

No confronto, alguma verdade

Tenho estado verídica, Verônica.

Ainda na faculdade tentei um estágio no Departamento Penitenciário. Não consegui, mas meu pai quase enfartou.
O diálogo daquela noite é especial. 
Por aqueles dias, meu pai havia insistido diariamente que eu fosse até a agência X do banco Y falar com o gerente Z, pois lá haveria uma oportunidade certa de estágio para mim. O meu descaso com a oferta e os comentários sobre o DEPEN (Dpto Penitenciário), deixaram meu pai confuso. 
Preocupado, quase insultado, ele me questionou com alguma severidade:
- O gerente só tá esperando sua 'entrevista'. Não entendo, juro que não entendo! Tá louca? Prefere trabalhar em presídio do que no Banco X?
Alguma verdade íntima me surgiu naquele instante, e eu não pude negá-la para o conforto de meu querido pai. Só pude levantar os olhos e responder:

- Prefiro, pai. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Verônica

Aconteceu em 2009. Ele estava preso há um ano por tráfico quando fui nomeada sua defensora. Sérgio havia vendido a quem havia pedido um pouco mais que 20 gramas da popular e tragada marijuana.

Sérgio era magro a ponto de ser indefeso, bonito, timidamente risonho e de afeto fácil. Nas consultas no parlatório limpo e estéril da Penitenciária, eu lia para ele os bilhetes de amor escritos por Verônica. Com os olhos plenos de lágrimas me implorava a liberdade. Para meu pesar, eu só trazia as más notícias vindas de Brasília.

Verônica passou a visitar-me semanalmente. As cartas - ela insistia - embora não pudessem ficar em posse do amado, deveriam ser lidas, relidas e mostradas - afinal, o capricho da caligrafia e das cores era um mimo possível. "Doutora, quando chegar nessa parte, fale um pouquinho mais alto." E eu obedecia as entonações recomendadas por Verônica.

Na última audiência, enquanto o assessor alimentava a impressora com os papéis oficiais, enquanto o juiz se ria discretamente com a bela promotora, Verônica - no alto de seu impulso floral de 17 anos - levantou-se e rapidamente beijou a testa frisada de Sérgio. Eles sorriram. Eu sorri.

O juiz advertiu-a duramente e expulsou-a da sala de audiência.

O poder não gosta do amor, já disse Warat.

O poder não gosta do amor, pude confirmar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cenários


 


"Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o "porque" desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. "Começa", isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não têm nada de original. Mas são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples "preocupação" está na origem de tudo."

- Albert Camus em O Mito de Sísifo

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cheiro de Fantasma






O portentoso prédio da universidade provinciana tem cheiro de fantasma, cheiro de tradição, cátedra mofada. Aroma de todas as mortes dos doutos nos retratos. Eles jamais sorriem.

As molduras barrocas, os louvores e láureas e honras aos Exmos. Srs. Drs. Eles jamais sorriem e jamais morrem.

V de Vendetta feelings.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ciúme compilado, complicado



"Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiura."

(Chico Buarque em Leite Derramado)

"Ciúme é falta de educação." (Domingos de Oliveira, cineasta)

Na tragédia shakesperiana dedicada ao ciúme, Othello, o Mouro de Veneza:

"Acautelai-vos senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive."

"As ninharias leves como o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da sagrada Escritura."

"Agora, nem papoula, mandrágora, nem todos os xaropes sonolentos do mundo poderiam dar-te de novo o
doce sono de ontem."

"Mas os ciumentos não atendem a isso; não precisam de causa para o ciúme: têm ciúme, nada
mais. O ciúme é monstro que se gera em si mesmo e de si nasce."

Últimas palavras da dedicada e fiel Desdêmona, ao ser morta por seu amor Othello: "Morro, e morro inocente."

O ciúme é um insulto.

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Imagem: Desdemona de Frederic Leighton

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

3 am


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Não é insônia, é apreço pela sombra, pelas gentes noturnas. A madrugada é tão cheia de neblina e ideias. O dia nos prédios tem uma claridade que vulgariza os ternos os burocratas os argumentos. Tardes de fatos, clientes e som ambiente.

Enfada.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

passa

(Essa, do Caio Fernando Abreu, eu colei para Ela. Ela que estava em surtíssimo. 
Logo após eu soube: surtiu. Que bom, esse é daqueles pra se guardar no bolso.)  

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez".

Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.

Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência".

E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.

Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar.

Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.

Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.

Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...

(Caio Fernando Abreu em Metâmeros)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Aos desafetos

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Prefiro que não leiam. Se lerem, que não entendam. E se entenderem, faço votos que não gostem.

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Mas não é só

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É entusiasmo também, é delícia em ser si mesma. Sabor de ser mulher fresca em flor. Tanto momento-coisa por aí. É quase verão.


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Sinto muito

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Sinto muito pelo desamor, sinto muito pela perda, pelo descuido e descaso, sinto muito.
Sinto muito e sinto tanto tanto que já não sinto nada.

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